abril 25, 2011

OLHAR EPISCOPAL - EDIÇÃO 08

É PÁSCOA!
por dom Milton Kenan Junior


Após quarenta dias de intensa preparação, toda a Igreja, revivendo a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, celebra o Mistério Pascal, ou seja, a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, a passagem da Morte para a Vida!

Na vitória de Cristo sobre o mal e a morte está o centro da vida cristã, pois é nela que encontramos a garantia da nossa fé, pois como nos diz o Apóstolo São Paulo: “se Cristo não ressuscitou vazia é a nossa pregação, vazia também é a nossa fé.” (1Cor 15,14); o incentivo para a nossa esperança, pois na Ressurreição de Jesus temos uma amostra do que Deus tem preparado para aqueles que o amam (cf. 1Cor 2,9) e, enfim, o alento para a nossa caridade: “Quem não poupou o seu próprio Filho e o entregou por todos nós, como não nos haverá de agraciar em todo junto com ele?” (Rm 8,32)

Caminhar à luz da Páscoa é o convite que a Igreja faz aos seus filhos, a cada ano com a celebração dos Mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição; mas também a cada semana quando da Páscoa semanal, que ocorre a cada domingo, quando reunidos ao redor da mesa da Palavra e da Eucaristia, “anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressureição”.

A luz que decorre da Páscoa ilumina toda a nossa vida! Tudo se transfigura! Tudo recebe e alcança um novo sentido. “Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez realidade nova. Tudo isso vem de Deus, que nos reconciliou consigo por Cristo.” (2Cor 5, 17-18a) No Cristo Ressuscitado, recebemos “graça sobre graça” (Jo 1,16); é Ele a nossa Páscoa (cf. 1Cor 5,7); que nos faz passar do “reino das trevas” para o seu Reino, “no qual temos redenção – a remissão dos pecados” (Col 1,13).

Em Cristo Ressuscitado mudam-se os critérios de valor e de importância! Iludem-se os prepotentes deste mundo, os astuciosos e os violentes. Enganam-se os que se deixam corromper e arrastar pela sede insaciável do consumo e do lucro, pautando suas vidas pela mídia enganosa e interesseira que se enveredam pelos caminhos da arrogância que determina que alguns possam desperdiçar enquanto outros não têm com que viver. Cumpriu-se o que a Virgem cantou na aurora da salvação: “Agiu com a força de seu braço, dispersou os homens de coração orgulhoso, depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou. Cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias. Socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia.” (Cf. Lc 1, 51-54).

Páscoa é anúncio e tempo de vida nova! Vida brotada da Cruz do Senhor, daquele peito que fora transpassado pelo soldado, donde jorrou sangue e água (cf. Jo 19, 33-35), sinal do eterno amor de Deus pelos homens, revelado no seu Filho Jesus Cristo. Vida iluminada pelo AMOR: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Aquele que não ama permanece na morte.” (1Jo 3,14).

Celebrar a Páscoa é confessar diante de Deus e diante do mundo que o que importa doravante, é o amor. “Nisto manifestou o amor de Deus por nós: Deus enviou o Seu Filho único ao mundo, para que vivamos por ele. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou e enviou-nos seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, devemos, nós tambem, amar-nos uns aos outros.” (1Jo 4, 9-11).

A cada ano, quando celebramos a Páscoa do Ressuscitado, reunindo-nos ao redor da mesa eucarística, Deus repete aos nossos ouvidos: o que importa é o amor!, pois “o que ama o seu irmão permanece na luz, e nele não há ocasião de queda.” (1Jo 2,10) Se nos falta o amor, falta-nos tudo. Sem amor nossas obras são trevas.

O Santo Padre Bento XVI, na homilia da Missa da Ceia do Senhor, na noite da Quinta-feira Santa deste ano, aludindo as parábolas sobre os banquetes, na qual se fala dos “lugares vazios” e da “veste nupcial”, cita São Gregório Magno que numa de suas homilias perguntava-se: “Que gênero de pessoas são aquelas que vêm sem hábito nupcial? Em que consiste este hábito e como se pode adquiri-lo?” Eis a sua resposta: “Aqueles que foram chamados e vêm, de alguma maneira têm fé. É a fé que lhes abre a porta; mas falta-lhes o hábito nupcial do amor. Quem não vive a fé como amor, não está preparado para as núpcias e é expulso. A comunhão eucarística exige a fé, mas a fé exige o amor, caso contrário, está morta, inclusive como fé.”.

Decidir-se pelo amor é compromisso pascal! É o convite que o Ressuscitado nos faz! Não fazer da Páscoa apenas um rito, uma lembrança do passado, uma liturgia solene! Tudo isso é importante, mas não é suficiente para que se dê a Páscoa! A Páscoa é mais do que um rito e uma lembrança! É preciso revestir nossas liturgias e nossa vida do verdadeiro amor, do amor do Ressuscitado, cujo amor consistiu em dar a vida pelos seus amigos (cf. Jo 15,13) para que sejam, de fato, expressão da Páscoa do Ressuscitado, da nossa Páscoa de cristãos!

Ao desejar-nos feliz ou santa Páscoa, lembremo-nos de Cristo, nossa Páscoa, cujo amor não foi só de palavras, mas traduziu-se em obras e, que nos convida a fazer o mesmo que Ele fez!

Dom Milton Kenan Junior

Bispo Auxiliar de São Paulo

Vigário Episcopal para a Região Brasilândia