janeiro 04, 2012

A VOZ DO PASTOR



Educar os jovens para a justiça e a paz: tarefa para o ano todo



Com muitos votos de “feliz ano novo”, chegou 2012! Houve quem rezou e confiou à providência de Deus o ano que temos pela frente; houve fogos, talvez para “acordar”, assustando as forças cósmicas e pedir a sua ajuda; outros lançaram os búzios, para ver se a sorte anda favorável... Muitos usaram roupa branca, “para trazer paz”; comida e bebida em abundância, para garantir fartura o ano todo... Funciona?

 
Cada um é livre para acreditar no quê quiser. Mas podemos perguntar se todas as coisas têm mesmo sentido. Quem tem fé sincera coloca na mão de Deus o ano novo e cada novo dia, fazendo sua parte para colaborar, com liberdade generosa, com os planos de Deus. As pessoas de fé tentam entender cada dia os caminhos de Deus, caminhando por eles. Deus não deixa de fazer a sua parte - isso é certo.

 
No dia 1º de janeiro, o papa Bento 16 enviou a todos os governantes, bispos e aos interessados, especialmente pais e educadores, para a comemoração do 45º Dia mundial da Paz, a mensagem com o tema: “Educar os jovens para a justiça e a paz”. Trata de uma questão crucial para o futuro da convivência humana na paz e na justiça: a boa educação das novas gerações. Sem isso, não haverá paz no futuro.

 
O papa dirige-se, em primeiro lugar, aos pais e às famílias; mas também às escolas e seus dirigentes, aos gestores sociais, políticos, pedagogos e comunicadores; enfim, aos adultos, de maneira geral, que têm o grave dever de encaminhar os jovens para o bom caminho. Os pais e as famílias ainda têm papel insubstituível, apesar de todos os problemas e também apesar de todo o lamentável desprestígio da família e dos próprios pais na tendência cultural contemporânea. A sociedade que não protege e apoia a família no cumprimento de sua missão educativa vai ter muitos problemas!

 
Os jovens estão naturalmente abertos para o novo e para o idealismo; a educação é um processo que deve levar ao apreço positivo pela vida, ao conhecimento da realidade circunstante, para nela situar-se e interagir de maneira construtiva com ela. Mas, como podem orientar-se bem na vida os jovens, quando o exemplo que recebem e aquilo que constatam ao seu redor é o relativismo diante da verdade e do bem, a apologia à violência, a confusão nas bases antropológicas essenciais, como a vida e a identidade sexual, a demolição de valores éticos referenciais, como o respeito pela pessoa e a honestidade, a exaltação de uma liberdade sem responsabilidade? Uma cultura decadente pode cumprir bem seu dever de educar as próximas gerações?!

 
Fundamental, diz o papa, é ensinar aos jovens o valor da vida e da pessoa humana, para aprenderem o respeito a si mesmos e ao próximo. Sem isso, a mera passagem de conhecimentos ainda está longe de ser verdadeira educação. Valem mais os exemplos que as palavras e os educadores não podem separar seus ensinamentos do testemunho de suas vidas. Testemunha é quem vive, pessoalmente, o caminho que propõe aos outros.

 
Diante de tendências, sempre presentes, do uso da educação pelo Estado para passar uma ideologia oficial, uma verdade única, Bento 16 também aborda a questão da liberdade quanto aos modelos de educação. Os educandos não sejam violentados em suas consciências pela imposição a todos de um modelo único de educação; que os pais e as famílias, primeiros responsáveis pela educação dos filhos, tenham a possibilidade de escolher o tipo de educação que queiram passar para os filhos; e também seja respeitada a liberdade religiosa no processo educativo, sem impor a todos, por exemplo, a “não-religião”, como única proposta.

 
Os próprios jovens são estimulados pelo papa a serem os primeiros protagonistas da sua educação, buscando a verdade e o bem, com grande interesse, e uma formação integral de suas pessoas; aprendam a fazer bom uso da própria liberdade, que “não é a ausência de vínculos, nem o império do livre arbítrio, nem o absolutismo do eu”; quando pretende ser senhor absoluto, o homem contradiz sua própria verdade e perde a liberdade autêntica; esta não pode jamais ser alcançada, sem referência a Deus.

 
A mensagem do papa é muito rica e oportuna. De fato, a humanidade passa por uma desorientação profunda e as crises econômica e financeira são apenas sintomas dessa crise mais séria e profunda, que é cultural e civilizatória. Para enfrentar a demolição dos valores, é preciso investir muito na formação das novas gerações. É tarefa para o ano todo, que está iniciando, e para muitos anos novos!

 
Publicado no jornal O SÃO PAULO, edição de 04/01/2012
Cardeal Odilo Pedro Scherer

Arcebispo de São Paulo
@DomOdiloScherer