julho 30, 2011

OLHAR EPISCOPAL - EDIÇÃO 10

ANUNCIAR A PALAVRA QUE GERA A VIDA

por dom Milton Kenan Junior


“O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos, e o que nossas mãos apalparam do Verbo da vida - porque a Vida manifestou-se: nós a vimos e dela vos damos testemunhos e vos anunciamos...” (1Jo 1,1-2a).

A cada ano, o mês de agosto é acolhido pela Igreja no Brasil como um tempo privilegiado para despertar nas comunidades o interesse, o compromisso, o apoio e a oração pelas vocações sacerdotais, religiosas e missionárias.

São muitas as iniciativas para criar a tão almejada “mística” ou “cultura vocacional”; ou seja, a sensibilidade tão necessária à ação do Espírito Santo que abre corações e mentes à voz de Deus, que não se cansa de chamar o seu povo, cada um dos seus filhos, aos mais diversos ministérios e serviços, para tornar realidade o Reino anunciado por Jesus, cujas parábolas ouvimos nestas últimas semanas, nas eucaristias dominicais.

Tenho em mãos o farto material produzido pelo Serviço de Animação Vocacional da Arquidiocese de São Paulo, enviado no formato PDF para todas as paróquias da Arquidiocese, pelo padre Messias de Moraes Ferreira. Os que se interessarem poderão solicitá-lo do próprio padre Messias (cvasp@uol.com.br), pois tratam-se de orientações e sugestões práticas e valiosas para tornar o mês de agosto um tempo de maior sensibilidade ao Deus que chama!

O tema sugerido, neste ano, à nossa reflexão e oração é “Anunciar a Palavra que gera a vida”, com o lema “Eu vim para que todos tenham vida” (Jo 10,10).

São sugestivas as palavras do papa Bento XVI no inicio da Exortação Apostólica “Verbum Domini”: “Num mundo que frequentemente sente Deus como supérfluo ou alheio, confessamos como Pedro que só Ele tem “palavras de vida eterna” (Jo 6,68). Não existe prioridade maior do que esta: reabrir ao homem atual o acesso a Deus, a Deus que fala e nos comunica o seu amor para que tenhamos vida em abundância (cf. Jo 10,10).” (VD 2).

Ainda no mesmo documento, Bento XVI dizendo da relação entre a Palavra de Deus e as vocações, afirma que “quanto mais aprofundarmos a nossa relação pessoal com o Senhor Jesus, tanto mais nos damos conta de que Ele nos chama à santidade, através de opções definitivas, pelas quais a nossa vida responde ao seu amor, assumindo funções e ministérios para edificar a Igreja” (VD 77).

A Palavra de Deus contida na Escritura pode ser compreendida como o relato de muitos chamados. No relato da criação (Gn 1, 1 - 27) vemos uma sucessão de “Deus disse...” “Deus fez...” Deus chamou”, revelando-nos o apelo divino que chama todas as coisas à existência, transformando o ‘caos’ em ‘jardim’, onde o homem e a mulher são colocados como Sua obra-prima. Emblemático é o chamado de Abraão (cf. Gn 12, 1-3), destinatário da benção e da promessa divinas, chamado a andar na presença do Senhor e viver na perfeição (cf. Gn 17,1). O que outrora lamentava a sua esterilidade, torna-se pai de uma multidão de filhos, semelhantes a areia do mar e as estrelas do céu (cg. Gn 15,2-6).

Não menos significativo é o chamado que Deus dirige a Moisés (cf. Ex 3, 7-12) para salvar o seu povo da escravidão do Egito e conduzi-lo à terra prometida. Nos profetas, porém, o chamado assume conotações de uma simplicidade e profundidade impressionantes (cf. Is 6, 1-8; Jr 1, 4-10). Mas é em Jesus, o chamado por excelência (cf. Hb 10,5-10), que a vocação alcança seu sentido e profundidade exemplares!

Na lógica da Palavra de Deus, todo o que é chamado tem a missão de chamar! Acompanhando os vários chamados, sobretudo os primeiros discípulos de Jesus, não é difícil constatar que os que se encontravam com o Mestre, sentiam-se impulsionados a levar outros ao encontro com Ele, a fazer sua a experiência que eles próprios faziam. Assim aconteceu com André (cf. Jo 1,40s) e com Filipe (cf. Jo 1,45s)! É a dinâmica de toda vocação!

Não sei se não me engano ao dizer, mas creio que o critério para discernir todo chamado é o compromisso em chamar outros ao seguimento de Jesus. O Documento de Aparecida afirma: “quando cresce no cristão a consciência de pertencer a Cristo, em razão da gratuidade e alegria que produz, cresce também o ímpeto de comunicar a todos o dom desse encontro” (DAp 145).

São muitas as maneiras e ocasiões para “chamar” e, são tantas também os modos como podemos transmitir o chamado aos que nos cercam. Desde situações corriqueiras como o convívio no lar, uma visita à escola, um momento de diversão com os amigos. Todas as ocasiões podem se transformar em oportunidade para semear no coração dos que estão ao nosso lado o interesse pelo Evangelho, o desejo de uma amizade mais intensa com Cristo, a disponibilidade para servir aqueles que ninguém quer servir, por Cristo e em Seu Nome, o desejo de se fazer dom à comunidade, assumindo o próprio lugar nela.

Mas também são muitos os modos como podemos transmitir o chamado do Mestre, considerando que o mais importante será sempre o testemunho de uma vida fundada no Evangelho! Nossas palavras tornam-se eloquentes, nossos convites irresistíveis se forem acompanhados de compromisso sério com o Senhor e fidelidade à sua Palavra; se, nossa vida, muitas vezes pobre e escondida, estiver tecida pelo fio de “uma fé direita, uma esperança certa, uma caridade perfeita”, como pede São Francisco ao Crucificado, capaz de levar ao “senso e conhecimento [de Deus]” no cumprimento da sua vontade.

Anunciar a Palavra que gera a vida é compromisso de todo chamado! “Chamados para Chamar!” “Evangelizados para Evangelizar!” “Discípulos-Missionários!” A Palavra percorre entre nós o Seu Caminho querendo gerar entre nós alegria e entusiasmo na Missão, compromisso com o Reino! Ouvintes, praticantes, anunciadores, testemunhas da Palavra é o que nos tornará verdadeiramente comprometidos com o surgimento de vocações genuínas e autênticas na Igreja!

Dom Milton Kenan Junior

Bispo Auxiliar de São Paulo

Vigário Episcopal para a Região Brasilândia